Woodstock, do sonho à realidade

Woodstock_music_festival_posterHá 44 anos ocorria o mítico Festival de Woodstock, nos Estados Unidos. Como todos os anos, o evento voltou a ser assunto na mídia e redes sociais. E como sempre, os clichês se repetem aos montes. Assim, lembrei de um trabalho que fiz anos atrás, uma pesquisa para um especial de 2 horas na KISS FM, que acabou virando palestra na ESPM.

Sim, eu palestrei para os alunos da conceituada Escola Superior de Propaganda e Marketing e minha palestra teve o pretensioso título “Woodstock – Um mito. Como o festival que encerrou a mágica década de 1960 tornou-se, ao mesmo tempo, o auge e o fim do sonho hippie e abriu a pesada década de 70”.

A intenção era demonstrar como diversos enganos sendo repetidos ao longo do tempo mistificaram o evento que foi um acontecimento sem precedentes, mas não tão perfeito, lindo, como as pessoas tendem a acreditar.

O maior engano que se comete é acreditar que o festival foi o auge do chamado “movimento hippie”. Foi, sem dúvida, o evento que se tornou mais conhecido, mas o auge da era hippie havia passado, Woodstock ocorre já em uma fase de declínio, é o início do fim.

O termo “hippie” surgiu em 1965, em São Francisco, e fazia referência a uma nova cultura com raízes nos beatniks, surgidos na década de 40, para denominar pessoas que buscavam uma forma alternativa de vida, quebrando os padrões da sociedade tradicional americana. Ideais anarquistas, anti-capitalistas, liberdade sexual, experimentação com drogas alucinógenas, busca espiritual, religiões orientais, entre outros aspectos.

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 A tendência ganha força em 1966 e o movimento atinge seu auge em 1967, quando ocorre o chamado Verão do Amor, o movimento “Flower Power”, as reuniões públicas, como o Human Be-In, a popularização de Haight-Ashbury, região de São Francisco que se tornou uma espécie de cidade hippie, além de outros acontecimentos importantes que culminaram com o grande festival Monterey Pop.

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O primeiro dos grandes festivais de Rock, foi o que de fato se pensa de Woodstock, um evento pioneiro, voltado para a divulgação da música, das artes, de cunho beneficente, isto é, os artistas tocaram de graça e a renda com ingressos e venda posterior de material relacionado, discos e filmes, foi toda revertida para diversas causas. Lá, Hendrix fez seu primeiro grande show nos EUA, Janis se tornou uma estrela, ícones do chamado Rock Psicodélico consolidaram seus nomes e depois chegariam a Woodstock como estrelas, dois anos depois. A exemplo deste também, o público esperado em Monterey superou em muito as expectativas, oficialmente fala-se em 90 mil presentes, mas acredita-se que mais de 200 mil pessoas tenham passado por lá nos 3 dias de evento.

Monterey Pop 1967

Após Monterey Pop, outros grandes eventos semelhantes ocorreram, como Miami Pop Festival, em maio de 1968, que fora organizado pelos mesmos investidores que depois fariam Woodstock. Antes deste, ainda ocorreriam Newport Pop Festival, 68, Denver Pop Festival e Atlanta Internacional Pop Festival, em 69, entre outros, todos nos mesmos moldes, com casts de artistas parecidos e milhares de pessoas presentes.

Miami

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Assim, em meados de 1969, quando ocorreu Woodstock, o formato já não era novidade, na verdade já estava desgastado. A princípio ninguém poderia esperar que um evento deste tipo no interior do estado de Nova Iorque fosse gerar tanto interesse, afinal apesar de ter se espalhado por todo o país e posteriormente pelo mundo, o movimento hippie tinha ligação essencial com a Califórnia e a costa leste americana. Tanto que a princípio, a ideia dos investidores que realizaram o festival não era exatamente esta. Um anúncio publicado por eles no Wall Street Journal e no New York Times, dizia:

“Jovens com capital ilimitado buscam oportunidades de investimento legítimas e interessantes e propostas de negócios“.

Uma das ideias originais era abrir um estúdio de gravações em Woodstock, pois a cidade havia se tornado um polo cultural alternativo, Bob Dylan e outros artistas já haviam passado por lá para compor, ensaiar, gravar, atraindo para o local todo tipo de artistas, não apenas músicos, mas atores, pintores, escultores.

Dos quatro investidores, foi Michael Lang, que organizara o festival em Atlanta, um ano antes, quem insistira na ideia do festival de música e artes, aproveitando a fama local. Mas, já sabendo do que poderia ocorrer, ainda que em proporção muito menor, com a vinda de milhares de jovens para a pequena cidade, as autoridades locais negaram a licença para o evento e Lang precisou encontrar novo local, que acabou sendo uma fazenda há alguns quilômetros dali, em Bethel. Ainda assim, as coisas só funcionaram devido a ação de Eliot Tiber, que possuía a licença para a realização de um evento anual, de pequeno porte, e acabou vendendo a ideia. Estes detalhes podem ser encontrados no livro Aconteceu em Woodstock, que também virou filme.

Aconteceu em Woodstock (Taking Woodstock) 2009

O fato é que as autoridades de Bethel, comunidade local, e aproveitadores de todo o tipo, também tentaram barrar o evento, seja por temerem as consequências, seja para tentar lucrar algo em cima. Desta forma, os organizadores foram ameaçados, extorquidos, chantageados de várias maneiras. E esta foi uma das razões para terem liberado a entrada gratuita do público.

Vários fatores, na realidade, contribuíram para a decisão de “abrir os portões” do evento. A primeira delas, é que os ingressos começaram a vender muito mais do que poderiam esperar, assim a previsão de lucros superou rapidamente as expectativas. Mas, o mais importante foi fazer pressão contra as autoridades para que não impedissem a realização do festival.  Com tanta gente já se dirigindo ao local, seria temerário cancelarem tudo de uma hora para outra, ainda mais quando os organizadores divulgaram em uma entrevista coletiva, via rádio, que o evento estava garantido e que todos poderiam entrar gratuitamente. A notícia se espalhou rapidamente. Foi o xeque-mate nas autoridades, que não quiseram assumir a responsabilidade de conter a fúria popular que o impedimento poderia gerar.

Outro fato que pesou também, foi a simples constatação de que não seria possível barrar a multidão com a estrutura precária montada, iriam acabar invadindo o local de qualquer maneira, a área era grande demais para ser devidamente cercada na época, não se prepararam para isto.

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Mas enfim, o evento ocorreu e todo mundo sabe o resultado, 500 mil pessoas, apresentações antológicas, imagens fantásticas que entraram para a história. Mas como era natural de se esperar, nem tudo foram flores, a começar pelos atrasos, já que as estradas ficaram travadas e os artistas não conseguiam chegar, além das fortes chuvas que obrigaram a interromperem os shows por diversas vezes. Isso também contribuiu para transformar o lugar em um verdadeiro lodaçal, onde não havia água potável, tampouco opção de comprar, tanto bebida, quanto comida.

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A pequena estrutura de palco também foi um problema grande, uma vez que o som tinha potência para no máximo atingir 10% da massa presente, o restante fez sua própria música, fosse tocando instrumentos, cantando, ouvindo som nos carros, ônibus, barracas. O importante era estar ali, até mais que ver/ouvir os artistas. Porém, toda a precariedade, chuva, frio, foram espantando a multidão, ao passo que quando Jimi Hendrix subiu ao palco para sua apresentação antológica, já na manhã do 4º dia, devido aos atrasos, 90% de todo o público que estivera presente havia ido embora. Assim, a explosiva versão do hino americano, brilhantemente interpretada por Jimi, que se tornou um ícone na luta contra a guerra no Vietnã, só ficou realmente conhecida com o lançamento do filme sobre o festival. Filme que, aliás, foi o que mais contribuiu para tornar o festival ainda mais importante historicamente.

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Nas fotos dá para notar que o público era pequeno durante o show de Hendrix, que encerrou o festival às 11 da manhã do quarto dia. Ao fundo se vê apenas os restos deixados pela multidão.

Concluindo, não é minha intenção desmerecer a importância de Woodstock, nem poderia, mas apenas corrigir a visão um tanto ingênua que se tem sobre ele. Até porque, como disse lá no início, a esta altura, 4 anos depois, a realidade já havia mostrado que o ideal hippie era utópico. Todos aqueles conceitos de viver a margem da sociedade, sem dinheiro, sem trabalho, viver em comunidades, produzindo o que comer, trocando serviços, uso livre de drogas, sexo livre, nada disso era tão simples, tudo cobrava seu preço, as vezes alto demais. Assim, os hippies se viram rapidamente vivendo em estado de penúria, passando fome, vivendo de mendicância, sem um sistema de saúde público onde se tratar, já que muitos contraíram ou desenvolveram doenças e dependência química, além dos constantes casos de overdose.

Além de tudo isso, casos de criminalidade e delinquência também mancharam de forma indelével o ideal “paz & amor”. O mais notório deles, os assassinatos cometidos pelos seguidores de Charles Manson, uma semana antes de Woodstock, no dia 09 de agosto, ajudaram a botar fim no sonho. Manson, fora criador e líder de uma dessas comunidades hippies tão comuns na época. O fim derradeiro viria com outro festival onde as coisas não saíram como planejado. No mês de dezembro, o que fora planejado para ser o Woodstock dos Rolling Stones, Altamont Free Concert, organizado e bancado pela banda inglesa, na Califórnia, entrou para a história pelo assassinato de um jovem negro em plena plateia, diante das câmeras.

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O momento em que os Hell Angels, contratados para fazer a segurança em Altamont, agridem um jovem da platéia.

Desta forma, terminava a mágica década de 60, que transformaria o mundo definitivamente, mas a dura realidade se impôs, as convulsões que abalaram o mundo em 1968, a implantação ou endurecimento de regimes ditatoriais, como no Brasil, ou no leste europeu, o endurecimento da guerra no Vietnã, o aumento do custo de vida nos EUA, a crise do petróleo que viria a seguir, refletiram também no mundo das artes e da música. Sem falar na morte dos grandes ícones citados neste texto e que foram símbolos desta era, Jimi Hendrix e Janis Joplin, em 1970, além de Brian Jones, guitarrista dos Stones, em 69 e o fim dos Beatles. O Rock perdeu ingenuidade e ganhou peso, era o Hard Rock que se impunha, o surgimento do Heavy Rock, do Heavy Metal e posteriormente, do Punk Rock. O mundo se tornara mais duro, pesado, a inocência acabara.

O ideal hippie ainda teria sobrevida, em países como o Brasil as comunidades continuariam a ganhar força na década de 70, os festivais de música continuaram a acontecer em todo o mundo, mas definitivamente a “era hippie” terminara com o final da década de 60 e Woodstock foi sem dúvida um marco do início do fim, o último suspiro de um sonho que marcou o mundo e ajudou a torná-lo mais justo, humanitário, embora tenha falhado como modelo de sociedade. Três dias de paz e amor que continuam ecoando, 44 anos depois…

Rodrigo Branco
https://www.facebook.com/rodrigo.branco.3

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