Nos pequenos atos é que se vê a grandeza de um povo

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Nós vivemos sob uma realidade perversa, em vários aspectos, tanto que nos sentimos mal por reclamar por “coisas pequenas”. Como se todos os problemas que existem em nosso país justificassem os problemas cotidianos que enfrentamos, que acabam incorporados a nossa rotina, como se fosse normal.

Na semana passada perdi minhas chaves. Não somente, no molho também havia um chaveiro que é uma espécie de crachá eletrônico. Foi no caminho para o trabalho, no ônibus. Apesar de não ter visto no momento em que caiu, é praticamente certeza que ficou no banco, pois eu entrei no ônibus com as chaves ainda em mãos e coloquei no bolso debaixo do casaco. Certamente caiu sem eu perceber, pois logo depois de descer do ônibus já me dei conta de que não estava mais com as chaves e seria muito mais difícil ter caído enquanto eu caminhava.

Sabendo da dor de cabeça que isso poderia gerar, tentei entrar em contato com a empresa de ônibus. Primeiro acessei o site da SPTrans, para lá procurar o nome e contato da empresa. Neste site existe uma página chamada “achados e perdidos”, com os nomes das empresas e os respectivos números de telefone para contato. Algumas são 24 horas, outras tem horários definidos.

No dia seguinte, liguei para a Sambaiba, a operadora da linha em cujo ônibus acredito ter perdido minhas chaves. Até então, estava achando que seria fácil falar com eles, ainda que não encontrasse as chaves, uma vez que além de ter esta seção no site da SPTrans, no site da própria Sambaiba existem números de telefone e e-mails de contato, incluindo um de ouvidoria. Tudo parece muito transparente, a princípio dando a impressão que funcionaria como se espera.

Ledo engano. Pra começar, o número divulgado em ambos os sites, inclusive em toda a frota de ônibus da empresa, um 0800, não existe! Assim, peguei outro número que achei no site da Sambaiba, para “outras regiões” e, inocente que sou, liguei. Aguardei, chamou, chamou, caiu. Liguei de novo, e de novo, e de novo… Por duas vezes atenderam e bateram em sequência, pude ouvir os sons no local, mas logo a ligação foi cortada. Poderia ser algum tipo de problema, mas pra mim pareceu mais a típica atitude de tirar do gancho e colocar novamente só para que pare de tocar, e incomodar.

Insisti mais algumas vezes, até que uma moça atendeu. Pedi para falar com o setor de “achados e perdidos”. Ela respondeu com o tradicional “um minuto, por favor” e transferiu a ligação. Esperançoso, pensei “agora vai”. Chamou, chamou, chamou, voltou. Transferiram de novo, chamou, chamou, chamou… desliguei. Tentei novamente mais tarde, tudo outra vez. Mandei e-mail, sem resposta. Mandei outro para a ouvidoria, ignorado.

Ai, eu fico me perguntando, pra que este cinismo de colocar número de informações, “fale conosco” no site, e-mail de ouvidoria, se não atendem e não respondem quando solicitado? Só para parecer que são uma empresa séria?

Mas ai você pensa, essas empresas de ônibus vivem envolvidas em suspeitas e acusações realmente graves, fala-se em máfia dos ônibus, em cartel, e eu estou espantado porque o “achados e perdidos” não me atende?

Pois é, nossa realidade é tão absurda, distorcida, que sentimos vergonha de buscar um direito, porque diante de tantos problemas maiores, um acontecimento corriqueiro como esse não parece importante o suficiente para se reclamar.

Impossível não lembrar desta matéria do CQC no setor de “achados e perdidos” do Terminal Tietê.

Lamentavelmente, a gente tem esperança de um dia viver em uma sociedade justa, mas tudo passa pelo comportamento cotidiano, desde as coisas mais simples, um funcionário que não cumpre sua função, que faz corpo mole, que é desonesto, até uma empresa que engana, manipula, frauda, desvia recursos. Nos espantamos com atitudes vergonhosas como as recentes votações no Congresso Nacional, mas aquilo é tão somente um reflexo cruel da nossa sociedade. Até porque, fomos “nós” quem elegemos toda aquela corja, que legisla em causa própria, motivados por um jogo de interesses escusos, visando tão somente a manutenção do poder e o enriquecimento ilícito. 

Rodrigo Branco

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