Bruce Springsteen, um show pra mostrar quem manda na parada

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Acabo de chegar de um dos melhores shows que já vi. E acredite, não foram poucos. Graças a minha profissão, acostumei a contar os shows pela quantidade de vezes que vi cada banda/artista, tipo uns 7 do Deep Purple, uns 6 do Iron Maiden (7 amanhã), 5 do Motörhead e por ai vai.

No entanto, poucos são aqueles que causam um impacto acima da média, que superam todas as expectativas, que são momentos únicos. Assim, após mais de duas décadas assistindo a centenas de shows internacionais, um dos que eu mais esperava ver era o de Bruce Springsteen. E quando essa tão esperada hora chegou, o que vi, foi algo além do normal. Neste nível, só os realmente grandes, como Paul McCartney.

Bruce é um artista singular, conhecido por suas performances longas, arrasadoras, por isso eu não esperava nada menos, mas a entrega total dele, tamanha dedicação com sua música, sua banda e seu público, é algo que nunca vi. Não é a toa mesmo que ele é conhecido como The Boss, pois rege como um maestro a orquestra chamada de The E Street Band.

Springsteen é um verdadeiro bandleader, talvez o maior que já se viu. Mas é também um showman, com talento, carisma e simpatia insuperáveis. Como se precisasse, ele se esforça para agradar durante todo o tempo. E conseguiu arrebatar a plateia de cara, ao surpreender a (quase) todos abrindo o show com uma improvável versão de Sociedade Alternativa. Sim, sem que ninguém pedisse, Bruce tocou Raul! Eu já sabia da “surpresa”, mas a maioria foi pega realmente de surpresa. O que eu não sabia, e nem poderia esperar, é que ele fosse cantar a letra toda, em português!  Cantou e convenceu, com a banda apoiando em um belo arranjo coroado por metais.

Veja o inusitado momento:

Eu, a essa altura, já estava com a voz embargada, olhos marejados, afinal como fã de Raul, ver um ícone como Bruce Springsteen lhe prestando esta bela homenagem, e a plateia cantando a plenos pulmões, não é fácil. Mas as lágrimas escorreram pelo rosto quando eles emendaram a bela We Take Care of Our Own, na sequência o clássico Badlands. Fazia tempo que eu não me emocionava de verdade em um show, foi assim com Paul, foi assim com Waters (The Wall) e outros poucos, neste nível. Nesta hora, agradeci por estar ali vivenciando tal momento, um sentimento único, inexplicável. Alegria genuína.

Recentemente, falando sobre o Rock in Rio, ao lado de André Jung, (baterista do Ira!), comentamos sobre a experiência de fazer parte de um show ao vivo. Não apenas assistir ao show, como se pode fazer em casa, pela televisão, pelo computador. Não, é a sensação de fazer parte daquilo, de sentir a energia, participar da catarse coletiva que se forma em situações como esta. Foi o que aconteceu, o próprio Springsteen arriscou perguntar, em português, se estávamos sentindo isto, o espírito da coisa, e protagonizou mais um momento único, foi até um tablado no meio do público, onde cantou uma música, ao alcance das mãos dos fãs. As mesmas mãos que depois o carregaram até o palco, de costas, por sobre suas cabeças. Algo realmente impressionante se considerarmos uma estrela de tal magnitude, seus 63 anos de idade e quase 45 de carreira.

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The Boss, consegue agradar tanto, que seu show lembra uma festa de partido político, uma convenção democrata. Ele beijou criancinha, puxou uma menina ao palco com um maço de rosas, retirou uma flor e ofereceu para a jovem fã, deu o microfone para ela cantar, desceu para beijar as velhinhas que estavam na fila do gargarejo, abraçou os fãs, pegou e exibiu os cartazes que levantavam, bebeu a cerveja que oferecerem, acariciou a barriga de uma grávida, promoveu um pedido de casamento de um casal de fãs em pleno palco, chamou um grupo de moças da plateia para cantar. Enfim, ele faz a festa. Bruce for President!

É tudo tão perfeito, que até parece ensaiado. Mas se Springsteen faz isso já há tanto tempo, a ponto de ser natural, ele não demonstra fazê-lo por obrigação, tampouco o faz de má vontade. Poucas vezes vi alguém tão satisfeito em fazer o que gosta, isso ninguém pode negar, ele realmente ama o que faz. Perto dele, gênios como Eric Clapton de fato soam aborrecidos, como este mesmo faz questão de dizer que fica em suas turnês.

Toda esta dedicação, tamanho engajamento, toda essa entrega, tomam a plateia de assalto, você se sente bem por estar presenciando cada momento como este e fazer parte daquilo. Assim, você canta o refrão de Born in the USA, apenas pelo prazer de cantar junto ao coro um sucesso tão estrondoso. Além desse, que as vezes aparece desconstruído em outras versões, Dancing in the Dark também deu as caras em versão bastante fidedigna, coisa rara, com metais no lugar do riff de teclado, mostrando que Bruce também se preocupou em tocar os grandes sucessos para um público que aguardava seu retorno 25 anos depois.

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Foto pessoal tirada pelo amigo Wladmyr Cruz, do Zona Punk

Vários outros sucessos e clássicos apareceram durante toda a longa apresentação de 3 horas e 15 minutos, Hungry Heart, Darkness of Edge of Town, The River, Born to Run e Because the Night, a bela canção que ele compôs junto com Patti Smith. Ao todo, foram 29 canções e acredito que ele pretendia mais, faltou Murder Incorporated, por exemplo, mas já era 0h30 e certamente a casa pedia o encerramento do show, já que na última meia hora deixou as luzes do teto acesas, o que causou uma sensação de desconforto. Ponto negativo para o Espaço das Américas, que por outros aspectos é de longe a melhor casa para shows em São Paulo.

Durante todo este tempo, não vi Springsteen deixar o palco para os bastidores, para trocar de roupa, ou qualquer outra coisa. Emendou as músicas contando “one, two, three, four”, com um fôlego digno dos Ramones, e seguiu em frente. Trocava de guitarra literalmente jogando o instrumento para um roadie escondido na penumbra, vários metros atrás. Também nunca vi nada parecido. A banda inteira deixou o palco em mais de uma ocasião, mas The Boss, não.

Ah sim, a banda! Um espetáculo a parte, uma orquestra, chegamos a ver 17 músicos no palco, contando com o bandleader, sessão de sopros, piano, teclado, um baterista vigoroso e incansável, apesar da idade aparente, Max Weinberg, duas, três guitarras, baixo, percussões e outros instrumentos que se alternam, típicos, como mandolin, acordeon, violino. Do Rock, com influência de Jazz e Soul, balanceados por belos backing vocals, Folk e Gospel, passeiam pelos estilos com desenvoltura, produzindo um som único. Destaque para a dupla de guitarristas, Stevie Van Zandt e Nils Lofgren, duas lendas, companheiros de Bruce de longa estrada, e o saxofonista Jake Clemons, sobrinho de Clarence Clemons, membro original da E Street Band, grande amigo de Sprigsteen, falecido em 2011, homenageado na penúltima música com sua foto nos telões. Ah, e a coreografia que a banda faz perfilada lado a lado no palco, inclusive com um trombone, é muito bacana!

2009 Bonnaroo Music And Arts Festival - Day 3

Enfim, um show histórico, memorável, maravilhoso. Bruce Springsteen é um artista sem igual, uma verdadeira estrela de primeira grandeza não apenas do Rock, mas da música. Em tempos em que Justin Timberlake é cotado para o lugar que um dia foi de Michael Jackson, eleito Rei do Pop, é um deleite ainda termos heróis musicais como Bruce na ativa. E viva Bob Dylan, Neil Young e tantos outros em quem Springsteen se inspirou e que também continuam na ativa fazendo as pedras rolarem.

No próximo dia 21, sábado, eles se apresentam no Rock in Rio, se você não viu o show aqui, veja lá, nem que seja pela TV, e sinta um pouco dessa magia…

Setlist completo:

Sociedade Alternativa
(Raul Seixas cover)
We Take Care of Our Own
Badlands
Death to My Hometown
Spirit in the Night
Darkness on the Edge of Town
Prove It All Night
(’78 intro)
No Surrender
(Sign request)
Bobby Jean
(Sign request)
Hungry Heart
The River
American Skin (41 Shots)
Because the Night
She’s the One 
Darlington County
Working on the Highway
Shackled and Drawn
Waitin’ on a Sunny Day
The Rising
Thunder Road
Land of Hope and Dreams
Encore:
We Are Alive
Born in the U.S.A.
Born to Run
Dancing in the Dark
Tenth Avenue Freeze-Out
Shout
(The Isley Brothers cover)
This Little Light of Mine
Encore 2:
This Hard Land
(Solo acoustic)

Rodrigo Branco
https://www.facebook.com/rodrigo.branco.3

 

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