Feudos modernos na terra da desigualdade

Palácio na Aquitânia, França, à venda por € 4.200.000 ou R$ 12,5 milhões

Palácio na Aquitânia, França, à venda por € 4.200.000 ou R$ 12,5 milhões

Recentemente circulou pelas redes sociais, ainda está circulando, claro, um link para um blog que compara preços de apartamentos em São Paulo com palácios na Europa, mostrando que tais imóveis aqui são mais caros que construções medievais no velho continente.

Logo depois vi outro link fazendo o mesmo com casas no Rio de Janeiro e mais um, que deve ter sido o original, comparando com imóveis em Nova York. Isso dá muito o que pensar, afinal são palácios suntuosos, gigantes, em paisagens oníricas, nos melhores países europeus. Como pode custar mais barato que um apê meia-boca em NY?

Os motivos são vários, primeiro que ninguém em sã consciência nos dias de hoje quer viver em um palácio medieval, feito de pedra, com centenas de aposentos, que para manter demanda um batalhão de funcionários e custos altíssimos. Até porque, na Europa, não existe mão de obra barata como aqui. Lá ninguém se dá ao luxo de ter empregados domésticos, só os muito ricos, mas estes é que não querem viver em castelos mesmo. Também, porque vários países europeus passam por momento de recessão, embora pode-se dizer o mesmo dos EUA e até do Brasil.

Mas o que mais me espantou nessa história foram os valores dos apartamentos em São Paulo. Não apenas, mas o tamanho e os custos que estão envolvidos em um imóvel desses e o quanto isso reflete nossa realidade. Apartamentos que custam de 15 a 20 milhões, coberturas que podem chegar a quase 50 milhões de reais, com 2 mil metros quadrados e 15 vagas na garagem. Quinze!

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Edifício na Vila Nova Conceição, em São Paulo, com apartamentos que podem chegar a 25 milhões. A cobertura chega perto dos 50 milhões de reais.

Ai eu fico me perguntando, pra que? Se um apartamento médio de 3 quartos tem cerca de 150 metros quadrados, dá pra imaginar o tamanho de um apartamento desses de alto padrão. E para manter um imóvel desses, quanto custa o condomínio? Se este mesmo apartamento de 150 metros estiver em um edifício minimamente bem localizado e com infraestrutura razoável, o condomínio pode chegar facilmente a 1000 reais. Quanto paga por mês o dono de um desses imóveis de alto luxo, 10 mil? E o IPTU, 100 mil ao ano? É provável que eu esteja chutando baixo em alguns casos. Mas é só pra exemplificar os valores absurdos, o fosso de realidade.

Sem falar que são apartamentos com 8, 12, 15 vagas na garagem, sendo que normalmente uma família vai ter 4, 5 pessoas, e nem sempre todas dirigem. Pra que tudo isso? Imagino ainda que os carros que ocupam estas vagas são todos modelos de luxo que podem variar de 200 mil a alguns milhões, e blindados.

E o pior é saber que a poucos quilômetros destes verdadeiros palácios empilhados, existem barracos empilhados, pessoas que vivem com praticamente nada, que passam fome, que lutam pra conseguir uns trocados para dar de comer aos filhos. Diante disso, como esperar que não exista criminalidade? O fosso da desigualdade é tamanho, que se torna impossível haver convivência harmoniosa. Existem muito poucos com muito e muitos com muito pouco.

Triste e cruel realidade. Tanto luxo, tanta ostentação, tanto desperdício, tanta desigualdade, tanta pobreza em volta. O feudalismo não acabou, só mudou de continente, por aqui ainda estamos na Idade Média.

No fim, acabei achando um link no site da revista Exame, que lista os 15 apartamentos mais caros de SP. Veja e tente não se indignar.

Enfim, só pra não perder o hábito, uma canção pra refletir

Rodrigo Branco
https://www.facebook.com/rodrigo.branco.3

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