Eram os deuses rockstars? Black Sabbath no Campo de Marte

No Campo de Marte, uma experiência mística, mitológica, mágica.

Show Black Sabbath em São Paulo, Campo de Marte, 11/10/2013

Depois da apresentação apoteótica de Bruce Springsteen em São Paulo, decretei que aquele fora o show do ano, mesmo sabendo que ainda teríamos apresentações de peso até o final de 2013. Mas ai veio o Black Sabbath…

Eu já tinha visto eles com o pequeno gigante Dio nos vocais, com Tony Martin também, assim como Ozzy em três ocasiões com sua banda solo. Então eu sabia o que esperar, e de fato esperava um grande show, mas jamais poderia esperar tamanha energia que rolou. Afinal de contas, estávamos ali diante dos criadores do Heavy Metal. Aqueles caras alteraram a história.

É redundante falar da emoção de estar ali, por um instante me senti um grande privilegiado, mas logo compreendi que isso valia para todos igualmente, estávamos vendo parte da história do rock ao vivo, como se tivéssemos voltado no tempo, tamanha a perfeição da apresentação. Aqueles senhores sessentões com tamanha vitalidade mudaram a vida de muitos que ali estavam e por essa razão tantos foram as lágrimas, como eu.

Me apaixonei pelo Black Sabbath na adolescência, fazendo a lição de casa, conhecendo os grandes baluartes setentistas, a trinca de ferro, com Deep Purple e Led Zeppelin. E enquanto a maioria se dividia entre Blackmore e Jimmy Page, eu sempre defendi o peso de Tony Iommi. Sempre me agradou mais o andamento arrastado, a sonoridade sombria, os temas obscuros.

Iommi live in Sao Paulo

War Pigs foi minha primeira música favorita, com seu protesto antiguerra tão veemente. Por isso, sabia que seria difícil controlar a emoção quando ouvisse milhares de vozes entoando este hino diante de seus inventores. Mas me surpreendi ainda mais quando entrou Into the Void e perdi completamente o controle, solucei. Vitão Bonesso, me disse exatamente o mesmo ao final do show, sem que eu tivesse comentado qualquer coisa antes. Sinal de que o momento foi mesmo especial, afinal poucos podem dizer ser tão conhecedores e fãs da banda como o apresentador do Backstage, baterista da famosa banda tributo Electric Funeral. Esta, aliás, foi uma das grandes ausências no show.

Outra grande ausência foi Symptom of the Universe, e claro, a super clássica Sabbath Bloody Sabbath. Músicas estas que não fazem parte do setlist da turnê, mas acho que não poderiam faltar em um show deles. De qualquer maneira, estavam lá a chapada Snowblind e a tétrica Black Sabbath, onde tudo começou, em 1970, com Ozzy reproduzindo fielmente sua horripilante gargalhada, momento pitoresco do show.  Também tivemos o prazer de ouvir Behind the Wall of Sleep e o peso assustador de N.I.B., cantada de cabo a rabo a plenos pulmões pela multidão. Todas acompanhadas por um show de imagens nos telões, de incrível definição.

Fairies Wear Boots, foi seguida pela também clássica Rat Salad, onde Tommy Clufetos mostrou porque foi escolhido para estar ali no lugar do fundador e genial Bill Ward. O novo baterista, de apenas 33 anos, que também é da banda solo de Ozzy, foi um monstro tal como Ward era nos 70, mas que infelizmente não poderia ser atualmente. Clufetos, faz questão de reverenciar o mestre inclusive em cada detalhe do visual. Fez por merecer o lugar, entrou para o Olimpo do rock, mas ainda assim não consigo deixar de pensar em que fdp de sorte é este cara!

Black Sabbath ao vivo

Iron Man, arrepiou a todos com sua introdução monstruosa e fez novamente a Zona Norte de São Paulo tremer, outra vez 70 mil vozes gritaram alto, e continuaram cantando em God is Dead?. A última das 3 novas canções executadas, já virou um clássico. A perfeição com que foi executada, me fez perguntar se não estávamos ouvindo um playback. Mais duas clássicas, Dirty Women e Children of the Grave, quando o baixo do mago Geezer Butler estala como as trombetas do apocalipse. O encore deu um gostinho e uma ilusão, com a introdução de Sabbath Bloody Sabbath, ao menos tivemos o prazer de ouvir o peso deste que é um dos riffs mais poderosos da história, emendada com a popular Paranoid.  Dezesseis hinos, em cerca de duas horas de magia, energia, emoção e empolgação do público, carisma, eficiência e maestria da banda.

Do que são feitos estes caras, eu não sei. Só sei que são de algum tipo sobre-humano, super-heróis da vida real, deuses do nosso cotidiano. No passado, diziam que a banda fizera um pacto com o demônio, o que sempre considerei uma grande bobagem. Mas se o fizeram, deu certo, porque poucas vezes se viu tamanho poder emanando de um palco. O peso que Iommi tira daquele velha SG surrada é sobrenatural, ninguém jamais conseguiu igualar. Assim como o baixo de Geezer ou o magnetismo de Ozzy. E na ausência de Ward, a força da bateria foi transferida para Clufetos, pois o que ele tocou também foi extraordinário.

Black Sabbath ao vivo no Campo de Marte, SP

Enfim, mais uma catarse coletiva, que não poderia ter acontecido em lugar mais apropriado, já que o show ocorreu em uma base aérea, local que simboliza força, poder, chamado Campo de Marte. O deus romano da guerra esteve presente ali, jubilou-se com tamanha energia, pode ter certeza. Ainda que os brados sejam pacifistas, assim como foi de paz e do bem toda essa energia, não tenha dúvida, antítese de qualquer maquinação do mal como poderiam sugerir as letras das músicas para os menos atentos, ou aspectos estéticos para os ignorantes.

Contrariando qualquer suspeita que ainda pudesse existir, sai de lá em estado de graça, com o coração pleno de felicidade, uma alegria genuína, um tipo de amor que só encontramos em raros momentos da vida. Agradeci mais uma vez pela oportunidade que a vida me deu, por estar ali, por compartilhar com amigos uma experiência tão exultante. Agradeci a Iommi, Geezer e Ozzy por existirem e por terem feito de nossas vidas algo melhor. Desejei que sejam eternos, que possam viver para sempre, não apenas em nossos corações e memórias, mas que a vida os conserve como mitos vivos que são. Iommi, está com 65 anos e um câncer linfático, em tratamento. Em duas horas de show, com toda classe que lhe é peculiar, não demonstrou um mínimo de cansaço, desanimo, desgaste, pelo contrário, foi perfeito como sempre. Se boas energias contam de fato, tá explicado o mistério. E sou grato por fazer parte disso.

Vida longa Tony Iommi, Geezer Butler, Ozzy Osbourne. We Love you all! Amém.

Black Sabbath live in Sao Paulo, Ozzy Osbourne

Cacete, to chorando de novo…rs

Setlist – São Paulo – 11/10/2013

War Pigs
Into the Void
Under the Sun/Every Day Comes and Goes
Snowblind
Age of Reason
Black Sabbath
Behind the Wall of Sleep
N.I.B.
End of the Beginning
Fairies Wear Boots
Rat Salad (solo bateria)
Iron Man
God Is Dead?
Dirty Women
Children of the Grave

Bis:
Paranoid (introdução de Sabbath Bloody Sabbath)

War Pigs

Black Sabbath

N.I.B.

Iron Man

Children of the Grave

Paranoid (Sabbath Bloody Sabbath intro)

Rodrigo Branco
https://www.facebook.com/rodrigo.branco.3

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