Quem é hipócrita mesmo?

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Toda essa polêmica em torno do resgate dos beagles, no famigerado Instituto Royal, rendeu boas discussões, mas também muitos absurdos e acusações de todos os tipos. Hipocrisia é a palavra do momento, usam e abusam dela, muitas vezes fora de contexto, de propósito, subvertendo o real sentido da expressão.

Pessoas de todos os tipos, usando argumentos bastante questionáveis, passaram a chamar de hipócritas todos aqueles que, de alguma forma, se posicionaram contra o uso de animais em experiências científicas. Isto porque, supostamente estes mesmos comem carne e não estariam preocupados com o sofrimento destes animais. Também, porque usariam remédios e cosméticos que foram testados em animais, e até por supostamente não se importarem com ratos e outros bichos usados em testes, que não beagles.

Para começo de conversa, são situações bem diferentes, não é porque alguém come carne, que essa pessoa não se preocupe, ou concorde, com a crueldade a que os animais são submetidos. A forma como os animais são criados e abatidos é fruto da indústria do alimento, a qual ganhou tamanha proporção devido ao rápido crescimento da humanidade no último século. Em 1900, éramos cerca de 1,6 bilhões na Terra, hoje, pouco mais de 100 anos depois, já passamos dos 7 bilhões de habitantes. Animais sempre foram criados para o consumo e isto nunca foi crueldade. Antes, eram caçados com a mesma finalidade, o que também não configurava abuso, uma fez que isso é tão somente parte da cadeia alimentar, o homem só está no topo dela. O consumo de carne foi parte da evolução humana, desde que o homem era um ser primitivo. Desta forma, é um erro culpar alguém por comer carne, como também é comparar o ato de criar e abater animais para consumo, com usá-los como cobaias. Consumir carne não é o mesmo que concordar com as técnicas cruéis, ou a ausências delas, utilizadas pela indústria para engordar e abater os animais.

Quanto a questão de medicamentos e cosméticos, não se pode julgar alguém por algo que a pessoa desconhece. As pessoas usam produtos disponíveis no mercado, ninguém é obrigado a saber que tais produtos foram obtidos através do sofrimento de animais, afinal isso não é algo que seja divulgado a toda hora. Aliás, quantos já tinham tido acesso a este tipo de informação tão pouco divulgada? Mesmo porque, se são fatos passados, não há muito o que ser feito, se não tentar evitar que o mesmo erro seja cometido daqui para frente. Afinal, não é isso que se está tentando fazer agora? Onde está a hipocrisia nisto? O que os acusadores ignoram, é que a medicina teve um grande salto no século XX, graças às pesquisas feitas durante a 2ª Guerra Mundial, boa parte delas feitas em cobaias humanas, pelos nazistas. Então, partindo deste raciocínio, seriam hipócritas também aqueles que tomam Aspirina quando tem dor de cabeça???

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Médicos nazistas examinam cobaia humana

Vejam só que artigo curioso e bizarro, publicado na revista Veja (sim, aqueeeela do boçal Reinaldo Azevedo), como sendo de 1943, de uma série especial sobre a II Guerra, intitulado justamente HIPOCRÁTICOS HIPÓCRITAS. Nele encontramos o seguinte:

“Em Ravensbruck, os tentâmenes medicinais do professor Julius Gepphard e equipe já aleijaram e mataram dezenas de prisioneiros. A remoção de ossos, músculos e nervos para a observação de possível regeneração são uma das vertentes empíricas analisadas pelos germânicos no local. Em sessões que duram até três horas, os ossos dos membros inferiores das cobaias são quebrados em vários pontos, reagrupados e envolvidos por uma tala – que por sua vez é removida antes que os ossos estejam reduzidos, a fim de se observar a evolução regenerativa e as possíveis modalidades de cura. Tudo isso, ressalte-se, sem anestesia.

Outra área de pesquisa dá conta de observar a eficiência de drogas contra uma série de vírus e bactérias: para isso, o indivíduo é deliberadamente ferido (com tiros ou incisões) e os agentes infecciosos são nele introduzidos. Depois disso, os medicamentos em questão são ministrados ao paciente, e sua reação é seguida de perto pelos enfermeiros. Um segundo grupo de infectados não recebe os remédios, de tal forma que os estudiosos possam comparar a evolução da doença e avaliar a eficácia dos entorpecentes. Para aperfeiçoar o método, os doutores germânicos passaram a introduzir também vidro e madeira na carne de suas cobaias, simulando assim as reais condições de recuperação dos feridos em campo de batalha.”
http://veja.abril.com.br/especiais_online/segunda_guerra/edicao006/sub2.shtml

Ou seja, não é exatamente o que se faz com os animais? Agora, eu pergunto a você que considera os testes em animais necessários para a evolução da medicina, concorda com isto também? Você pode alegar que devemos usar os animais justamente para poupar os humanos. Mas ai, eu pergunto novamente, e quem foi que determinou o direito do homem de decidir quais espécies devem servir de cobaia para a sua própria evolução? Até onde vai a ética?

Usar animais é mesmo necessário?

Pesquisadores em todo o mundo já se posicionaram contra a necessidade do uso de animais como cobaias e provam que isto é possível. Não apenas, mostram que pesquisas com animais não garantem resultados em humanos, pelo contrário, podem induzir a erros e atrapalhar as conclusões. Afinal, humanos e animais tem características diferentes, embora semelhantes em muitos casos, como afirma o pesquisador citado abaixo.

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Em Londres, mulher aceitou passar por testes como cobaia para alertar contra o uso dos animais

 “A pesquisa científica com animais é uma falácia”.

Médico americano afirma que a pesquisa com animais atrasa o avanço do desenvolvimento de remédios

Há 20 anos, Ray Greek abandonou o consultório para convencer a comunidade científica de que a pesquisa com animais para fins médicos não faz sentido. Greek é autor de seis livros, nos quais, sem recorrer a argumentos éticos ou morais,  tenta explicar cientificamente como a sua posição se sustenta. Em 2003 escreveu Specious Science: Why Experiments on Animals Harm Humans (Ciência das Espécies: Por que Experimentos com Animais Prejudicam os Humanos, ainda não publicado no Brasil) e o mais recente em 2009: FAQs About the Use of Animals in Science: A Handbook for the Scientifically Perplexed (Perguntas e Respostas Sobre o Uso de Animais na Ciência: Um Manual Para os Cientificamente Perplexos). Ele garante que sua motivação não é salvar os animais, mas analisar dados científicos.

(…)

O senhor seria cobaia de uma pesquisa que está desenvolvendo algum remédio?
Claro. Se a pesquisa estivesse sendo conduzida eticamente eu seria voluntário. Milhares de pessoas fazem isso todos os dias. Por vezes elas doam tecido para que possamos aprender mais sobre uma doença, em outros momentos ingerem novos remédios para o tratamento de doenças na esperança que a nova droga apresente alguma cura.

E se o medicamento nunca tivesse sido testado em animais?
A falácia nesse caso é de que devemos testar essas drogas primeiro em animais antes de testá-las em humanos. Testar em animais não nos dá informações sobre o que irá acontecer em humanos. Assim, você pode testar uma droga em um macaco, por exemplo, e talvez ele não sofra nenhum efeito colateral. Depois disso, o remédio é dado a seres humanos que podem morrer por causa dessa droga. Em alguns casos, macacos tomam um remédio que resultam em efeitos colaterais horríveis, mas são inofensivos em seres humanos. O meu argumento é que não interessa o que determinado remédio faz em camundongos, cães ou macacos, ele pode causar reações completamente diferentes em humanos. Então, os teste em animais não possuem valor preditivo. E se eles não têm valor preditivo, cientificamente falando, não faz sentido realizá-los.

http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/%E2%80%9Ca-pesquisa-cientifica-com-animais-e-uma-falacia%E2%80%9D-diz-o-medico-ray-greek

Cachorro encontrado no Instituto Royal, problemas nos dentes e língua

Outra pesquisadora, a brasileira Silvya Stuchi Maria-Engler, que em 2010 recebeu o prêmio Paulistana do Ano, pela mesma Revista Veja SP, desenvolve pesquisas que são a solução para os testes de cosméticos, provando que o Instituto Royal é uma instituição atrasada.

Bióloga da USP desenvolve pele artificial para diminuir testes em animais

“Aos 42 anos, essa bióloga lidera na Universidade de São Paulo (USP) pesquisas com o uso de uma pele artificial – idêntica à humana -, que permite avaliar a toxicidade e a eficácia de novas drogas para o tratamento de câncer. Seus estudos também ajudam as indústrias a testar produtos cosméticos, reduzindo a necessidade do uso de cobaias animais. Agora, ela luta pela criação de um centro nacional de testes alternativos. “A indústria cosmética européia já baniu o uso de animais. Nossa pesquisa vai trazer esse avanço ao Brasil”, afirma Silvya.
http://vista-se.com.br/redesocial/biologa-da-usp-desenvolve-pele-artificial-para-diminuir-testes-em-animais/

Pesquisadores sustentam ainda que, a taxa de acertos das pesquisas em animais, ou seja, quando os mesmos resultados obtidos servirão também para humanos, varia de apenas 5%, a 25% dos casos. Seja em pesquisas simples para cosméticos, seja para casos graves de câncer ou AIDS. Veja o que diz o Physicians Committee for Responsible Medicine, dos EUA:

“Animal Experiments Lead AIDS Research Astray “

“A pesquisa da cura e da vacina contra a AIDS realizada em animais, só nos afasta da obtenção de resultados, desencaminhando a pesquisa científica da obtenção de reais e eficazes soluções para os humanos infectados ou que possivelmente ainda se infectarão no futuro imediato.”
http://www.pcrm.org/good-medicine/2001/spring/animal-experiments-lead-aids-research-astray

Estas, e outras informações do gênero, podem ser encontrados no blog Contato Animal, em matéria do ano passado, bastante anterior a atual polêmica.

“Verdades sobre os métodos substitutivos à experimentação em animais”.
http://www.contatoanimal.blogspot.com.br/2012/02/verdades-sobre-os-metodos-substitutivos.html

Protesto contra o Instituto Royal

Ou seja, como bem defendeu o Procurador de Justiça, ex-Promotor Público e atual Deputado Estadual, Fernando Capez, o tal Instituto Royal é uma entidade arcaica, que funcionou ilegalmente durante muito tempo, usando recursos públicos para fazer pesquisas com resultados questionáveis. 

No vídeo, Capez é veemente também na defesa dos ativistas, argumentando que estes não cometeram crime algum, uma vez que tal entidade desrespeitava, inclusive, artigos constitucionais. Sendo assim, é igualmente absurdo criminalizarem as pessoas que lá estiveram e resgataram os animais que, de fato, sofriam maus tratos, independente do que eles tentam mostrar através da imprensa. Uma grande falácia é o que estão fazendo, tentando manobrar a opinião pública, tentando convencer a todos de que o resgate dos beagles atrasou o avanço científico no Brasil. Uma vez que, em países como a Inglaterra, as pesquisas com animais foram praticamente banidas, representando apenas 0,1% das pesquisas atuais, apenas para casos muito específicos e sob rigoroso controle. Algo bastante diferente da obscuridade em que são feitas as coisas por aqui, quase que por debaixo dos panos. Veja o discurso contundente do deputado e tire suas conclusões:

Enfim, para encerrar a questão das muitas “hipocrisias” envolvendo todo o caso, a alegação de que isso só causou comoção porque se tratavam de cachorros fofinhos, que ninguém teria se preocupado se fossem apenas ratos. Bem, até certo ponto, isso não deixa de ser verdade, de fato cachorros causam muito mais comoção que ratos. Mas ai também não vejo hipocrisia nenhuma, afinal, cachorros são animais de estimação, existe todo um histórico de relação afetiva com estes animais, que são companheiros do homem desde um passado remoto. Já ratos, sempre estiveram associados a sujeira e doenças, ainda que isso não sirva para todas as espécies. Evidente que não justifica o uso de ratos como cobaias. Acredito que as pessoas que não querem isso para os cachorros, também não concordam que se use qualquer outra espécie. Mas que um cause maior comoção que outro, é absolutamente compreensível. Afinal, me digam qual a reação dos senhores ao ver um beagle passando na rua, e qual a reação ao ver um rato. Por acaso é igual? Evidente que não. Alguém consegue imaginar uma pessoa saindo de um laboratório abraçada a um rato? Alguém consegue enxergar a mesma expressão de sofrimento que se vê nos olhos de um cachorro, nos olhos de um rato?

Sinceramente, acho que hipocrisia mesmo é tentar nivelar tudo por baixo, como se não existisse diferença nenhuma. Assim como boa parte das pessoas considera aceitável usar cachorros como cobaias no lugar de humanos, a maioria não se comove tanto com ratos como com cachorros, como é natural também se incomodar ainda menos comparando um rato com uma barata, e assim por diante. Mas, repito, não sentir a mesma empatia por cachorros e ratos, não quer dizer que as pessoas concordem com o sofrimento dos roedores e tampouco que sejam hipócritas por terem se comovido pela causa dos beagles.

Cadáver de filhote congelado encontrado no Instituto Royal

Cadáver de filhote congelado encontrado no Instituto Royal

Ah sim, já ia esquecendo, teve quem tivesse a capacidade de fazer ligações absurdas com crianças abandonadas, como se quem defende os animais não se comovesse também com isso. Porém, a diferença é tão primária que me parece perda de tempo explicar o óbvio. Crianças são abandonadas por pais irresponsáveis, por famílias negligentes, por autoridades incompetentes que não cumprem seu papel social. Até porque, ninguém em sã consciência deixa de se indignar com crianças abandonadas, muitos ajudam entidades assistências, mas ninguém pode sair recolhendo crianças pelas ruas, levando para abrigos, como se faz com animais. Esse tipo de comparação demagógica, não faz o menor sentido.

Concluindo, tudo é questão de ponderação e bom senso. Portando, antes de partilhar uma imagem no Facebook ofendendo as pessoas, antes de acusar os outros de hipocrisia, antes de comprar ideia de políticos, cientistas, policiais, jornalistas mal intencionados, pense. Pensar ainda é de graça, faz bem pra saúde e continua sendo fundamental para a evolução da humanidade. Informação é tudo.

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Rodrigo Branco
https://www.facebook.com/rodrigo.branco.3

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