Série Pérolas do Rock Nacional – Ouro de Tolo

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O nome é uma alusão às promessas de falsos alquimistas na Idade Média, às quais se dava o nome de ouro de tolo.2 Raul Seixas reduz a nada as aspirações da classe média que apoiou o milagre econômico da ditadura ao transpor a ideia para a década de 1970: era um ouro de tolo a visão religiosa conformista e a euforia do cidadão respeitável gerada por estabilidade social.2
Wikipédia

Acaso o destino tivesse barrado Raul Seixas, bastaria, porém, apenas uma de suas canções para assegurar-lhe eternidade: “Ouro de Tolo”. É a música-chave do álbum Krig-Há, Bandolo!, 1973. Em uma semana, o compacto conseguiu gigantesca popularidade. Naqueles tempos de milagre econômico, a letra autobiográfica de Raulzito soou como sonoro tabefe desferido na cara da classe média. A canção também embalou audaciosa tacada de marketing, bolada por Paulo Coelho, para transmitir aos lares brasileiros preceitos da Sociedade Alternativa. No dia 7 de junho de 1973, no centro do Rio de Janeiro, Raul Seixas convocou a imprensa e entoou “Ouro de Tolo” em rede nacional. A cena foi exibida no Jornal Nacional e Raul ganhou o Brasil.
Revista Rolling Stone Brasil

Raul Seixas – Ouro de Tolo

Eu devia estar contente por eu ter um emprego, sou o dito cidadão respeitável e ganho quatro mil cruzeiros por mês;
Eu devia agradecer ao Senhor por ter tido sucesso na vida como artista, eu devia estar feliz porque consegui comprar um corcel 73;
Eu devia estar alegre, satisfeito por morar em Ipanema depois de ter passado fome por dois anos, aqui, na cidade maravilhosa;
Eu devia estar sorrindo e orgulhoso por ter finalmente vencido na vida, mas eu acho isso uma grande piada e um tanto ou quanto perigosa;
Eu devia estar contente por ter conseguido tudo o que eu quis, mas confesso abestalhado que eu estou decepcionado;
Porque foi tão fácil conseguir e agora eu me pergunto, e daí? Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar e eu não posso ficar aí parado.
Eu devia estar feliz por o Senhor ter me concedido o domingo pra ir com a família no jardim zoológico dar pipoca aos macacos;
Ah, mas que sujeito chato sou eu que não acha nada engraçado, macaco, praia, carro, jornal, tobogã, eu acho tudo isso um saco.
É você olhar no espelho e se sentir um grandessíssimo idiota, saber que é humano, ridículo, limitado, que só usa dez por cento de sua cabeça animal;
E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial que está contribuindo com sua parte para o nosso belo quadro social.
Eu é que não me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar;
Porque longe das cercas embandeiradas que separam os quintais, no cume calmo do meu olho que vê, assenta a sombra sonora de um disco voador.

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