Golpe profundo, a despedida repentina de um herói brasileiro da guitarra

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No antigo estúdio da KISS, em 2008, quando entrevistei a banda no programa Alternativa KISS. Não pude esconder a cara de fã feliz.

Nada pode ser mais surpreendente, impactante, que a morte precoce de uma pessoa que estava bem de saúde, e que, subitamente morre, vítima de um ataque cardíaco, por exemplo.

Ainda mais quando essa pessoa é um ídolo, alguém que você aprendeu admirar por seu trabalho, por sua arte, e mais ainda, como pessoa. Mas a vida é assim, e dessa vez ela levou um dos caras mais talentosos do Rock brasileiro, Hélcio Aguirra, aos 56 anos.

Ouvi a guitarra do Hélcio pela primeira vez na adolescência, quando o Golpe de Estado tocava frequentemente na extinta rádio 97 Rock, que na época ficava em Santo André. Foi Paixão na hora, sempre fui fã de rock nacional, letras em português, mas o Golpe levou aquela paixão as alturas, afinal era um rock nacional com muito mais pegada, muito mais energia, o peso da guitarra do Hélcio supria a falta que existia na maioria das bandas.

Isso era início da década de 90, Noite de Balada havia se tornado um grande sucesso em SP, uns dois anos antes, faixa do 2º disco da banda. Nem Polícia Nem Bandido, Velha Mistura, Não é Hora, do disco seguinte, se tornariam clássicos, assim como Caso Sério, a linda balada que acabara de explodir com o lançamento do Quarto Golpe, em 1991. Mais ou menos nessa época a banda abriu show do Deep Purple, e o baterista Paulo Zinner seria cotado pra entrar para o grupo inglês. O Golpe era grande!

A primeira vez que vi Hélcio ao vivo, foi no histórico Aramaçan Clube, em Santo Andre, em uma festa da 97. O Golpe era a banda principal da noite, tocando em casa. Catarse total, salão enorme abarrotado, Catalau surtado, dando aquele show a parte. Nelson Britto estava lá com toda sua competência no baixo, mas eu não tirava os olhos da Gibson SG de Hélcio, ou da linda Flying V, de onde ele tirava um timbre que eu nunca ouvi igual entre as bandas brasileiras.

Esta foi só minha primeira experiência ao vivo com eles, mas depois virou rotina ir a todo show onde a banda estivesse tocando nas redondezas, vi dezenas de shows, eu realmente amava o Golpe. Meu primeiro autógrafo do Hélcio peguei em 1995, em São Vicente, e ainda tenho. Mesmo depois da saída de Catalau, primeiro grande baque na banda, continuei acompanhando com a mesma empolgação. Depois saiu Zinner, algo impensável, mas segui em frente com eles. Só que agora, creio eu, o golpe foi forte demais…

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Fã que fã guarda os ingressos de 20 anos atrás e tem discos autografados

Neste meio tempo, lá se foram mais de 20 anos, me tornei radialista, e desde 1996 tenho o orgulho de dizer, sem nenhuma demagogia, que o Golpe de Estado foi um das bandas nacionais que mais toquei por vontade própria, sempre resaltando a qualidade dos músicos, a guitarra do Hélcio. Desde então, já são 4 rádios rock no currículo, fora as piratas no comecinho de carreira, e em todas eu fiz questão de falar do Golpe e, sempre que possível, levei material da banda para enriquecer o arquivo das rádios.

Claro que trabalhando neste meio, tive o prazer de encontrar com a banda mais de uma vez, e até entrevistá-los. E em todas as ocasiões, Hélcio sempre me impressionou pela simplicidade, pela simpatia. Tive oportunidade também de discotecar em dois shows da banda, convidado pelo atual vocalista, Dino Linardi. E nestas ocasiões também foi uma honra trabalhar com Hélcio, que fazia questão de vir conversar comigo, agradecer por divulgar a banda, como se precisasse… Aliás, quantas vezes brinquei dizendo que ele era o Tony Iommi brasileiro, por causa do riffs, dos timbres, das guitarras, do peso! As vezes eu brincava dizendo que ele parecia uma mistura do Iommy com Michael Schenker. Ele sempre sorria, agradecia, e dizia “que isso, imagina, quem sou eu”, com toda humildade que lhe era peculiar.

E com a popularização das redes sociais, a simplicidade de Hélcio continuou a mesma, ele próprio me adicionou no Facebook, e com frequência apareceria curtindo minhas postagens e até comentando vez ou outra. Me senti ainda mais honrado no dia em que ele me enviou “inbox” as novas músicas que estavam produzindo, para o que viria a ser o disco Direto do Fronte, de 2012. Imaginem, ele queria saber a minha opinião…

Por estas e outras, eu digo que hoje perdi um dos meus maiores ídolos, alguém que eu sempre admirei como músico, e depois como pessoa. Mais que um ídolo, portanto, havia se tornado um colega, um amigo, enfim. Por isso, não sei explicar esta sensação de perdê-lo assim, de maneira tão inesperada. É um vazio terrível. Sinto muito, mesmo.

Mas, como ele nos trazia alegria com sua arte, apesar da tristeza profunda neste momento, e mesmo sabendo que iremos lamentar sua perda por muito tempo ainda, devemos lembrá-lo com o devido sorriso no rosto. Domingo retrasado, em minha festa no Madame, coloquei pra tocar Salém – A Cidade das Bruxas, do Harppia, outra excelente banda criada pelo Hélcio, antes mesmo do Golpe. Tive sorte de ver a banda ao vivo, em um show de reunião, com o lendário vocalista Jack Santiago, inclusive. Esta não foi a primeira vez que toquei Harppia em minhas discotecagens, assim como coloquei o Golpe pra tocar várias vezes, não apenas na rádio, mas nas pistas também.

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Épico disco do Harppia, autografado após o show

Sendo assim, muitas homenagens virão! Hélcio tem seu lugar de destaque na história do rock brasileiro, como um dos maiores e melhores guitarristas que tivemos. Sua memória jamais será esquecida, iremos trabalhar pra que isso  aconteça.

Salve Hélcio Aguirra! Obrigado por tudo, mestre!

E descanse em paz!

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