Quando Acabar o Maluco Sou Eu

Raul Seixas (25)

Você é doido. É uma frase que ouço com frequência.

Sou doido porque fui para a Virada Cultural, sou doido porque vou trabalhar de bicicleta na hora do rush e volto de madrugada. Sou doido porque resolvi morar no centro.

Eu diria que sou cidadão.

Tá, okey. Em uma cidade como SP, para exercer sua cidadania, você precisa ser meio doido mesmo. Mas esta é uma loucura que eu não abro mão, em nome da minha sanidade, física e mental.

Isso porque escolhi morar perto do trabalho, me livrando de vez do estresse diário do trânsito e transporte público entupido. Para tanto, também abri mão do conforto de ter um carro, o que a maioria das pessoas que me chama de doido, não faz. As pessoas reclamam a vida inteira do trânsito, dizem que está um caos, que está impossível viver na cidade assim, mas continuam usando seus carros da mesma forma. Eu sei que o sistema de transporte não ajuda muito, mas um esforcinho não mata. Em alguns casos é questão de adaptação de horários, de local de trabalho/moradia. Tudo na vida são opções, eu fiz as minhas e pago o preço, um pouco mais caro morar por aqui, mas compensa no restante.

Tal opção, aliás, me permitiu também botar em prática um velho sonho de voltar a andar de bicicleta, como fiz em toda minha juventude. Andar de bike em SP é um desafio eterno, mas se a gente ficar esperando a cidade se adaptar as nossas expectativas para fazer as coisas, não fazemos nada. Desta forma, eu encaro o perigo do trânsito, capacete na cabeça, luzinhas piscantes na magrela e pernas pra que te quero! Além da praticidade, rapidez e economia, faço atividade física e não poluo ainda mais o ambiente. Sem falar no prazer que é descer a Augusta de bike de madrugada, com o vento na cara… É perigoso? Claro, assim como andar a pé, de moto, de carro…

E por falar em perigo… Sim, resolvi encarar o centrão mais uma vez para a Virada Cultural e não me arrependi de nada. Como faço todos os anos, fui a pé e voltei sem problemas. Vi excelentes shows, nenhuma briga, nenhum arrastão, nenhuma morte. Em outros anos presenciei alguns incidentes, desta vez dei mais sorte. Sim, sei que teve tudo isso, aos montes, incluindo terríveis cinco mortes.

Realmente é inadmissível que em um evento cultural aconteçam tais atos, mas precisamos considerar que se trata de um evento para 4 milhões de pessoas nas ruas de uma metrópole violenta como São Paulo. Cinco mortes é um absurdo, mas não é nada além do que acontece em qualquer sábado a noite na cidade. A média de assassinatos na capital paulista passa de 10 por dia. Chocante, mas real. Furtos de celulares acontecem aos montes também em eventos pagos, e caros, como Skol Sensations, Lollapalooza e afins.

E não, não tô defendendo o governo petista da cidade, pois como disse, frequento a Virada desde o início, época das administrações de Serra/Kassab. Acho que o evento é válido e não se justifica criticá-lo apenas pela violência, que é um problema crônico da cidade. Pode-se questionar se é certo fazer evento deste porte aberto, sabendo-se dos riscos. Talvez seja mesmo a hora de mudar o formato.

Fato é que eu não precisava ir, porque posso ver os mesmos shows em condições melhores, e por força do meu trabalho, poderia ainda ter solicitado credenciamento de imprensa, para ficar na área reservada, algo que muitos brigam pra conseguir. Mas não, eu prefiro estar com amigos, participar como todos.

Tudo isso porque, enfim, a cidade é nossa, reclamar sem fazer nada, sem usar, sem batalhar por ela, é se render a insanidade opressora do cotidiano dessa metrópole cruel. Eu moro perto do trabalho, não preciso de carro, ando a pé, ando de bicicleta, pego busão, vou aos shows no centro, vivo. Mas o doido sou eu.

Ou como diria o poeta:
Eu sou louco, mas sou feliz
Muito mais louco é quem me diz
Eu sou dono, dono do meu nariz
Em Feira de Santana ou mesmo em Paris
(Raul Seixas – Quando Acabar o Maluco Sou Eu)

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