Bolsa Cash, socialismo americano?

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Nesta época eleitoral, por incrível que pareça, ainda tem gente que não entende que o governo ajudar seus cidadãos não é assistencialismo, é obrigação. Só assim se constrói uma nação forte, foi assim e é assim em qualquer país desenvolvido no mundo.

Lendo a biografia de Johnny Cash, este trecho ficou marcado em minha mente. Fui procurá-lo novamente, pois acho emblemático. No maior país capitalista do mundo, o homem que é um dos maiores símbolos americanos de todos os tempos, conta sobre sua origem humilde, e como sua família só pôde sair da miséria com a ajuda do governo:

 (…)No fim de 1934, meu pai ficou sabendo de um novo Programa Federal de Auxílio a Emergências, pelo qual homens do campo arruinados pela Depressão, como ele, seriam reassentados em terras compradas pelo governo. Ele me explicou, anos mais tarde: “Ficamos sabendo que podíamos comprar oito hectares de terra, bem como uma casa e um celeiro, sem precisar pagar à vista, e que nos dariam uma mula e uma vaca e forneceriam mantimentos durante todo o primeiro ano, até que tivéssemos uma colheita e pudéssemos pagar por tudo, e não precisávamos pagar até termos as safras”. Esse era exatamente o plano, e mais: em quarenta e seis lugares diferentes nas zonas agrícolas dos Estados Unidos, essas “colônias” estavam sendo criadas numa base cooperativa. No assentamento ao qual nos dirigíamos, nós e todas as outras famílias teríamos uma parte no armazém, na fábrica de conservas, no descaroçador de algodão e em outras instalações. Todos éramos responsáveis por elas e dividíamos os lucros provenientes, se houvesse algum. O algodão que produzíamos era juntado à colheita comunitária para ser vendido mais tarde por preços melhores do que o produto alcançaria em colheitas individuais. Então, como já disse no passado, cresci sob o socialismo – ou quase. Talvez uma palavra melhor seja “comunalismo”(…)

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Embora esta história tenha se passado antes da Guerra Fria, achei bem curioso quando um amigo me disse dias atrás que os EUA são um exemplo porque lá partidos socialistas são proibidos por lei. Agora, me parece terrivelmente perverso e anacrônico que hoje, 80 anos depois, estejamos ainda discutindo questões tão básicas por aqui.

Vale lembrar que Johnny Cash sempre cantou a dor do povo, e a favor dele, do pobre, do índio, do presidiário… é o que diz uma de suas mais emblemáticas letras, Man in Black:

Bom, você imagina por que sempre me visto de preto,
Por que nunca vê cores brilhantes nas minhas costas,
E por que minha aparência parece ter um tom sombrio.
Bom, existe uma razão para as coisas que visto

Eu visto o preto pelo pobre e oprimido,
Vivendo no lado faminto e sem esperança da cidade,
Eu o visto pelo preso que há muito tempo já pagou pelo seu crime,
Mas está lá porque ele é uma vítima dos tempos.

Eu visto o preto por aqueles que nunca leram,
Ou escutaram as palavras que jesus pronunciou,
Sobre a estrada para a felicidade através do amor da caridade
Por que, você pensaria que ele está falando diretamente para você e eu.

Bom, nós estamos indo muito bem, eu suponho,
Na nossa fileira de carros reluzentes e roupas da moda,
Mas, então, somos lembrados daqueles que são excluídos,
Na frente, tem que existir um homem de preto.

Eu visto pelo velho doente e solitário,
Pelos descuidados que se tornaram frios por causa de uma péssima experiência
Eu visto preto em luto pelas vidas que poderiam existir,
A cada semana perdemos cem bons homens jovens

E, eu visto pelos milhares que morreram,
Acreditando que o senhor estava do lado deles,
Eu visto pelos outros milhares que morreram,
Acreditando que todos nós estávamos do lado deles.

Bom, existem coisas que nunca serão certas, eu sei,
E coisas que precisam de mudanças em qualquer lugar que você vá,
Mas, até nós começarmos a nos mexer para endireitarmos algumas coisas certas,
Você nunca me verá usando um terno branco.

Ah, eu adoraria vestir um arco-íris todos os dias,
E dizer para o mundo que tudo está ok,
Mas tentarei retirar um pouco da escuridão das minhas Costas,
Até as coisas serem brilhantes, eu sou o homem de preto

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